quarta-feira, 14 de abril de 2010

“o terrorismo iraquiano contra os Estados Unidos”

A sua obsessão com o Iraque também era uma teimosia. De acordo com o livro de Clarke recentemente publicado, em Abril de 2001, quando Clarke marcou uma reunião com adjuntos de membros da administração, Wolfowitz fez cara de zangado e exigiu saber por que o tema não era “o terrorismo iraquiano contra os Estados Unidos” em vez de a Al-Qaeda. Para surpresa de Clarke, Wolfowitz contradisse directamente os representantes da CIA e do FBI na reunião, argumentando que Saddam constituía o maior perigo para os EUA. Clarke achou inacreditável que um especialista em política externa como Wolfowitz defendesse que o Iraque estava por trás do ataque bombista contra o World Trade Center em 1993, “uma teoria que fora investigada durante anos e que se concluiu ser totalmente falsa”, disse ele ao comité do Congresso.

Nem sequer a visão dos aviões a mergulhar nas torres gémeas fez abalar essa obsessão. Na primeira reunião na Casa Branca em que se encontraram após o ataque, Rumsfeld “dizia que precisávamos de bombardear o Iraque”, disse Clarke numa entrevista à cadeia de televisão CBS. “E todos nós dissemos: não, não. A Al-Qaeda está no Afeganistão. Precisamos de bombardear o Afeganistão. E Rumsfeld disse que não havia nenhum alvo bom no Afeganistão. E que havia muitos alvos bons no Iraque. E eu disse; 'Bem, há muitos alvos bons em muitos lugares, mas o Iraque não tem nada a ver com isto.'... eu pensava que ele estava a brincar. Acho que eles queriam acreditar que havia uma ligação, mas a CIA estava lá sentada, o FBI estava lá sentado, eu estava lá sentado, dizendo que investigámos este assunto durante anos. Durante anos nós procurámos, e simplesmente não há nenhuma ligação.”

Clarke continuou: “O presidente arrastou-me para um quarto com duas outras pessoas, fechou a porta e disse: 'eu quero que você descubra se o Iraque fez isto'. De facto, ele nunca disse: 'Invente-o'. Mas toda a conversa deixou-me absolutamente sem nenhuma dúvida de que George Bush queria que eu voltásse com um relatório que dissesse que tinha sido o Iraque a fazê-lo.

“Eu disse, 'Sr. Presidente. Já o fizémos antes. Investigámos isto com uma mente aberta. Não há nenhuma ligação.”

“Ele voltou-se para mim e disse: 'Iraque! Saddam! Descubra se há uma ligação'. E de um modo muito intimidatório. Quer dizer, deveríamos regressar com uma resposta. Escrevemos um relatório.. foi devolvido dizendo, 'Resposta errada... Façam novamente.'”

A princípio, os porta-vozes de Bush responderam ao testemunho de Clarke dizendo que ele inventara tudo, especialmente a pressão para incriminar Saddam pelo ataque ao World Trade Center. Mais tarde, depois de terem aparecido duas testemunhas das ordens “Iraque! Saddam!” de Bush para Clarke no dia a seguir ao ataque, a Casa Branca começou a aparecer com outros argumentos. Como evidência de que o relato de Clarke não fazia sentido, Rumsfeld mostrou que os EUA, de facto, tinham bombardeado e invadido o Afeganistão semanas depois do ataque. Mas será que isso prova que Clarke está a mentir, ou apenas indica que a invasão do Afeganistão – a qual também fora planeada antes do 11 de Setembro – era apenas um passo no caminho de uma mais vasta guerra que estava a ser preparada desde o princípio?

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